A chanceler alemã Angela Merkel, que teve seu celular possivelmente grampeado pela Agência Nacional de Segurança americana (NSA), afirmou nesta quinta-feira (24), ao chegar à cúpula de chefes de Estado e de Governo em Bruxelas, na Bélgica, que “amigo não espiona amigo”.
“Espionagem entre amigos, isso não se faz”, disse Merkel.
Ela disse ter transmitido esta mensagem ao presidente Barack Obama, a quem pediu explicações.
Merkel vai se reunir com o presidente francês, François Hollande, para tratar da questão da espionagem dos Estados Unidos.
“Os fatos são os fatos. Não podemos aceitar, seja de quem for, uma espionagem sistemática. São necessárias medidas e não se pode imaginar isso a nível de um único país, são necessárias medidas europeias para que cesse esta atitude”, disse o primeiro-ministro belga, Elio Di Rupo, que teve casos de espionagem também registrados em seu país.
E a Procuradoria Federal da Alemanha, encarregada de casos de espionagem, anunciou nesta quinta-feira (24) que estudava as informações segundo as quais o telefone celular da chanceler Merkel teria sido grampeado pelos Estados Unidos.
Até o momento, como prelúdio para uma eventual investigação formal, a Procuradoria iniciou um “procedimento de observação” durante o qual “pedirá a todas as autoridades que transmitam os elementos” em sua posse sobre o caso, explicou seu porta-voz, Marcus Kohler, em um e-mail enviado à agência de notícias AFP.
Localizada em Karlsruhe (oeste), a Procuradoria já havia iniciado um procedimento similar no último verão (do hemisfério norte), após a publicação de informações sobre a vigilância eletrônica de cidadãos alemães pela agência americana de segurança NSA.
Angela Merkel telefonou na quarta-feira (23) ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para exigir uma explicação.
O presidente americano, no entanto, garantiu à chanceler que os Estados Unidos “não estavam espionando nem espionarão suas comunicações”.
Merkel disse, por sua vez, que se for confirmado que seu celular foi grampeado pelos Estados Unidos, consideraria a situação totalmente inaceitável e seria um golpe duro para a confiança entre os dois países.
E as denúncias continuam: segundo o seminário italiano L’Espresso desta quinta-feira (24), os serviços de inteligência dos Estados Unidos e do Reino Unido têm monitorado redes italianas de telecomunicações, tendo como alvo o governo e empresas, assim como grupos terroristas suspeitos.
A reportagem, baseada em evidências vazadas pelo ex-prestador de serviço de uma agência de espionagem dos EUA, Edward Snowden, provavelmente aumentará a indignação entre os aliados europeus de Washington ante as atividades da Agências de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês).
“A NSA tem muitas operações de espionagem, também sobre governos europeus e incluindo o governo italiano”, disse o jornalista Glenn Greenwald ao “L’Espresso” em uma prévia da matéria a ser publicada na íntegra na sexta-feira (25).
A prévia publicada nesta quinta-feira não continha evidências específicas, mas diz que documentos em poder de Snowden “contêm uma grande quantidade de informações sobre o controle das telecomunicações italianas, que serão divulgadas nas próximas semanas”.
O secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, disse ao premiê italiano, Enrico Letta, que os EUA trabalham para “encontrar um equilíbrio adequado entre a proteção da segurança e da privacidade de nossos cidadãos” e que as consultas a parceiros como a Itália continuariam.
Além do monitoramento realizado pelo programa norte-americano chamado de Prism, um outro programa de vigilância apelidado Tempora e conduzido pelo governo britânico também espionou o tráfego de telefone, Internet e e-mail que passa por cabos submarinos na Sicília, disse o “L’Espresso”.
E apimentando, ainda mais, o escândalo a ex-secretáriade Estado americana Madeleine Albright disse, também nesta quinta-feira (23) que, quando estava no governo, suas comunicações foram ouvidas pela França.
Assim, Albright tenta minimizar as preocupações de vários países com a espionagem praticada pelos Estados Unidos.
“Isso não é uma surpresa, os países espionam uns aos outros”, declarou Albright no Centro de Análise para o Progresso Americano, em Washington.
Albright, que foi embaixadora nas Nações Unidas de 1993 a 1997, antes de ser nomeada para liderar a diplomacia americana, indicou que soube em primeira mão dos casos de vigilância de que autoridades americanas eram alvo na ONU.
“Lembro-me claramente quando eu estava nas Nações Unidas. O embaixador francês se aproximou de mim e perguntou: Por que você disse isso para tal pessoa, sobre o por que você quer mulheres no governo?”, relatou Albright.
“Então respondi, ‘desculpe-me?’ Eles interceptaram uma de minhas conversas”, disse Albright, sem fornecer mais detalhes.
Albright ressaltou que as revelações vazadas pelo ex-consultor da NSA,Edward Snowden têm sido “muito prejudiciais” para os Estados Unidos.
“Exaltar Snowden é um erro. Acredito que o que ele fez é um ato criminoso e que nos causou um grande dano”, acrescentou.
Nos últimos dias, Brasil, México, França e Alemanha expressaram seu descontentamento com as revelações de espionagem por parte dos serviços de inteligência americanos.
Vale lembrar: os chefes de Estado ou líderes políticos estão equipados com sofisticados aparelhos para se comunicar ou trocar informações sensíveis, mas também usam diariamente smartphones comuns, que podem facilitar as tentativas de espionagem.
O governo alemão está dotado há vários meses de smartphones Blackberry Z10 (2.500 euros cada um) especialmente protegidos.
Na França, os membros do executivo têm telefones celulares criptografados (de 3.300 euros), produzidos pela empresa francesa Thales (eletrônica e defesa) exclusivamente para o Estado. Estes aparelhos permitem comunicações protegidas até o nível de “segredo de Estado”.
Alguns líderes políticos e funcionários de alto escalão também possuem uma intranet muito protegida e uma rede ministerial de telefonia fixa e fax.
Mas estes sistemas são encarados, frequentemente, como um incômodo por seus utilizadores, já que exigem protocolos ou procedimentos de utilização às vezes muito pesados: por exemplo, o Teorem leva até 30 segundos para efetuar uma chamada devido as suas chaves de segurança, o que pode se tornar irritante em uma época na qual as comunicações são cada vez mais rápidas.
Todos os líderes políticos, empresários, banqueiros ou jornalistas que adquiriram um telefone criptografado “têm, paralelamente, ao menos um iPhone ou um Blackberry”, explicou Robert Avril, fundador da sociedade pioneira Cryptofrance, que lançou em 2008 seus primeiros telefones codificados, à agência de notícias France Press.
Ainda segundo reportagem da AFP, vários especialistas em cibercriminalidade, o uso do Teorem irritava, particularmente, o ex-presidente francês Nicolás Sarkozy. Seu sucessor, François Hollande, teria conservado seu smartphone pessoal ao chegar ao poder, como complemento dos demais aparelhos codificados.
Já Barack Obama chegou, em 2009, à Casa Branca precedido por uma reputação de grande fã do Blackberry, mas precisou lutar para conservar seu smartphone, antes de obter um modelo ultraprotegido aceito pela equipe jurídica da presidência e pelo Serviço Secreto, que protege os presidentes.
A ideia era evitar colocar em risco a vida de Obama, cuja posição exata poderia ser revelada por seu telefone, mas também respeitar a lei que indica que todas as comunicações presidenciais sejam arquivadas.
