Trabalhadores de ajuda humanitária dizem que as crianças refugiadas sírias estão chegando ao norte do Líbano magras e subdesenvolvidas.
Casos de desnutrição estão surgindo desde as áreas controladas pelos rebeldes no norte da Síria até os subúrbios controlados pelo governo ao sul de Damasco.
Matéria publicada no The New York Times, assinada pela jornalista Anne Barnard, informa que, por toda Síria, um país que, antes, se orgulhava de fornecer comida barata, os esforços domésticos e internacionais para assegurar o sustento básico em meio ao caos da guerra, parecem estar fracassando.
Milhões estão passando fome em vários graus e há crescente evidência de que a desnutrição aguda está contribuindo para um número relativamente pequeno, mas crescente, de mortes, especialmente entre crianças pequenas, feridos e enfermos, disseram trabalhadores de ajuda humanitária e especialistas em nutrição.
Os especialistas alertam que, se a crise prosseguir inverno adentro, o número de mortes por fome e doença pode ultrapassar o de mortes por violência, que já matou mais de 100 mil pessoas. E, se a privação durar mais, uma geração de sírios corre o risco de ser subdesenvolvida.
Apesar de a guerra impedir um levantamento preciso do número de pessoas afetadas, cresce a evidência de fome.
O governo está usando sítio e fome como tática de guerra em muitas áreas, segundo vários trabalhadores de ajuda humanitária e moradores, que dizem que os soldados nas barreiras confiscam alimentos, como pequenas sacolas de compras, tratando a alimentação de pessoas em áreas estratégicas controladas pelos rebeldes como sendo um crime. Os grupos rebeldes também estão bloqueando algumas áreas controladas pelo governo e intimidando os comboios de alimentos.
Mas, mesmo aqueles que vivem em áreas mais acessíveis, o que os trabalhadores de ajuda humanitária chamam de “insegurança alimentar” faz parte da nova realidade dos sírios. A inflação tornou os alimentos inacessíveis para muitos; a escassez de combustível e farinha fechou algumas padarias, enquanto ataques aéreos pelo governo visam outras; a produção agrícola despencou.
Apesar de o Programa Mundial de Alimentos dizer que está fornecendo comida suficiente para 3 milhões de sírios a cada mês, seus representantes dizem que só podem monitorar o que é entregue aos depósitos centrais em várias cidades.
De acordo com especialistas,a desnutrição ataca os mais vulneráveis primeiro: bebês e crianças, aqueles que sofrem de diarreia, aqueles que precisam de alimentação extra para se recuperar de ferimentos ou doenças crônicas, e aqueles que não têm dinheiro nem contatos para obtenção dos alimentos de que precisam.
Em situações traumáticas, os casos podem passar despercebidos até estarem avançados, quando as vítimas atingem “um ponto sem retorno”, disse Vincent Lacopino, um consultor médico da Médicos pelos Direitos Humanos. Incapazes de absorver calorias, muitos não se recuperam sem atendimento médico sofisticado, mesmo recebendo porções de alimentos, disse ele.
Independentemente disso, segundo trabalhadores de ajuda humanitária, o fato de os bloqueios militares estarem impedindo pessoas com necessidades agudas de receber ajuda é por si só uma violação de direitos humanos.
