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Comissão da Verdade: viúva pede perdão pelos erros do marido Amilcar Lobo

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A viúva do psicanalista Amilcar Lobo (morto em 1997) pediu perdão ao ex-preso político Cid Benjamin durante audiência da CEV (Comissão Estadual da Verdade), nesta quarta-feira (2),  realizada no auditório da Caarj (Caixa de Advogados Aposentados do Rio), no centro do capital fluminense.

Amilcar Lobo serviu o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) durante o regime militar (1964-1985).

Emocionada, Maria Helena Souza foi a única depoente que aceitou responder aos questionamentos feitos pelos membros da Comissão da Verdade no decorrer da sessão.

Antes, os militares da reserva Luiz Mário Correia Lima e Dulene Garcez, suspeitos de terem participado das sessões de tortura que levaram à morte o jornalista e dirigente do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) Mário Alves, em janeiro de 1970, optaram pelo silêncio.

Segundo a testemunha, Maria Helena, o marido participou “involuntariamente” das sessões de tortura. Sua função era analisar as condições físicas e psicológicas dos presos políticos submetidos a agressões dos torturadores, e atestar se eles poderiam, ou não, continuar no DOI-Codi.

“Eu não o inocento. Ele teve sua participação involuntária, mas teve”, afirmou a viúva em referência a Lobo.

Ao se dirigir a Cid Benjamin, que hoje trabalha no setor de comunicação da CEV, Maria Helena disse que o marido era obrigado a lidar com ameaças de represália, principalmente em relação aos filhos e à família. “A vida do Amilcar foi marcada por muitas coisas que não batem uma com a outra. Descrever essa história é extremamente importante para mim e para o Brasil”, disse ela.

A viúva relatou que havia entre os torturadores uma “sensação de impunidade muito grande”.

Os militares, em nome do combate ao “inimigo” e à “ameaça do socialismo”, não achavam que um dia seriam culpabilizados pelos crimes ocorridos durante o regime, disse Maria Helena.

 “Havia aquela sensação de estar com a verdade. Eles achavam que aquilo era o melhor para o Brasil. Achavam que estavam salvando o país mesmo que para isso estivessem torturando pessoas”.

Maria Helena contou ainda sobre o trauma de Lobo, que teria visto um preso político ser assassinado com um tiro na testa simplesmente por ter problemas mentais. “Esse preso tinha um distúrbio e o Amilcar não conseguiu tratá-lo a tempo. Como ele não ficou bom naquele dia, decidiram que ele não servia mais”, disse.

A morte do ex-deputado federal Rubens Paiva, após sucessivas sessões de tortura, também foi relatada pelo ex-psicanalista do DOI-Codi, segundo a viúva: “Ele comentou que isso foi algo que mexeu muito com ele (o fato de ter visto a vítima agonizando). Ele sonhou várias vezes com essa pessoa agonizando. (…) Ele chegou a falar ‘Rubens Paiva’ por três vezes para que o Amilcar não esquecesse aquele nome”.

A audiência da Comissão da Verdade realizada, na manhã  desta quarta-feira (2), tinha o objetivo de reunir informações sobre a morte de Mário Alves, porém os dois militares da reserva que compareceram à sessão, os então tenentes Luiz Mário Correia Lima e Dulene Garcez nada falaram sobre o período no qual atuavam no DOI-Codi.